Capítulo I – Download

December 2, 2009

Depois de dois post dedicados a arte popular da seresta (este aqui e esse outro), o História da Infâmia traz – agora – duas músicas para download. A primeira é Viola Enluarada, composição de Marcos Valle. A outra é de autoria de Francisco Petrônio: Baile da Saudade.

As duas são cantadas por José Carlos Carreiro.

Clique aqui e aqui para baixá-las.


Novo do Belle and Sebastian a Caminho?

November 19, 2009

Então. Na onda de mistério que tem contagiado o pessoal da música ultimamente, o Belle & Sebastian postou a foto acima bem na entrada do site deles que diz o seguinte: “Aqui estão provas de atividade pra assegurar vocês que estão pirando na seção de perguntas e respostas. Olhem atrás do Stuart… aquilo é um disco novo do b&s no horizonte?”

Todo mundo tá com um humor bem misterioso recentemente, né?

Mais informações no próximo episódio.

Também postado no Bloodypop.


Vinte e Quatro Fotogramas Por Segundo: Cinema na Ásia

November 15, 2009

Nem tudo, ainda bem, é Hollywood.

Por isso, o História Universal da Infâmia preparou um especial com cinco grandes nomes do Cinema na Ásia. Entre os escolhidos: dois chineses, um radicado em Hong Kong e o outro, Taiwan, uma japonesa, um iraniano e um Tailandês. Todos premiado com, pelo menos, um Cannes.


Capítulo II – Cronópio

November 8, 2009

O projeto Cronópio é um grupo de discussão e produção literária, sediado no Departamento de Comunicação Social da Ufes. Todas as quintas, o grupo se reúne para uma oficina de Vídeo-Poema, ministrada pelo professor Erly Vieira Jr.

No vídeo abaixo, um pouco do que rolou na última quinta-feira.
O grupo debatia o que fazer com as imagens gravadas, especialmente sobre uma mostra de Vídeo-Poemas na Semana Calórica de 2010/1 do curso de Comunicação Social da Ufes.


Capítulo I: José Carlos Carreiro, Seresteiro #pt2

November 8, 2009

JOSÉ CARLOS CARREIRO, 62, nascido em Mascarenhas, ES, interpreta grandes sucessos da bossa, samba canção, boleros estrangeiros e MPB pelos restaurantes e bailes de Vitória. Também é compositor de várias canções que, aliás, fizeram e ainda fazem muito sucesso entre aqueles que acompanham sua trajetória!

Encantou-se pela música aos 22 anos e determinou-se a aprender tocar violão para acompanhá-la, “quiçá, por toda a vida”. Na verdade, não foi apenas pela música que ele se apaixonou! Conta ele que, quando conheceu Regina, a linda menina dos olhos verdes que cantava como um anjo, não pensou n’outra coisa: precisava entrar o mais depressa possível nas aulas de teoria! E com muita dedicação tornou-se não só mais um amador do violão popular, mas um violeiro amante que encanta os públicos com sua voz imponente e seus dedos ligeiros. O conhecimento teórico da música aplicada ao violão também lhe proporcionou lecionar.

NO PARÁ, tinha um grupo de Carimbó, música típica do lugar. O Grupo Sabor da Ilha fez muito sucesso durante o período em que ele esteve lá! Ao retornar à Vitória, em 1995, ele e sua esposa apresentam-se frequentemente em cerimônias de casamento, grandes festas de aniversários e eventos variados.

Seus amigos o admiram pelo amor que demonstra pela música e sabem que esta é sua paixão, que seu trabalho é mais um prazer que propriamente “trabalho”!!! Seus cinco filhos, não obstante, herdaram tal gosto: todos cantam, quatro deles tocam violão e dois já compõem.

“Nossa vida foi sempre uma festa! A música alegra e une ainda mais nossa família”


Capítulo I. A Valsinha ou José Carlos Carreiro, Seresteiros

October 19, 2009

Valsinha – Chico Buarque

É até engraçado que José Carlos Carreiro tenha se apaixonado por Regina. A moça cantava e ele tocava serestas, gênero musical originado por serenatas tão antigas quanto século XV. Na profissão desde os 22 anos, contando 40 anos de carreira, já se apresentou em casamentos, teve um grupo de Carimbó no próprio Pará, que não é o lugar mais longínquo (ou estranho) em que tocou música. Esse posto fica com Cayenne, na Guiana Francesa, onde alugou uma sala de cinema que fez as vezes de palco para José.

“E ali dançaram tanta dança que a vizinhança toda despertou
E foi tanta felicidade que toda cidade se iluminou
E foram tantos beijos loucos, tantos gritos roucos como não se ouvia mais
Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu
Em paz”

Chico Buarque de Holanda


Ficção Inédita: Para Ler Poesia Hoje

October 7, 2009

Vinícius Rocha

Hoje em dia é mais fácil ler poesia.

Não perca tempo, aproveite que ainda é dia,

hora que a Escelsa não cobra a conta da sua poesia.

Hoje em dia é melhor ler poesia.

Mas a do trabalho, preste atenção, para ler poesia,

acredite que não será a mais adequada hora do dia.

Hoje em dia é melhor ler poesia,

mas, não é que seja assim Read the rest of this entry »


Biblioteca de Babel: Registros de Havana – jornalismo e literatura na América Latina

October 4, 2009

O barulho dos saltos nos paralelepípedos das ruas cadenciava o gingado das calças jeans de Havana velha. É inebriante: as luzes avermelhadas, as paredes coloridas dos edifícios gêmeos, a pele brilhosa e perfumada das horistas. Há quem se preocupe – outros não. “Sexo é um intercâmbio de líquidos, de fluidos, de saliva, hálitos e cheiros fortes, urina, sêmen, merda, suor, micróbios e bactérias. Ou não é. Se é só ternura e espiritualidade etérea, se reduz a uma paródia estéril do que poderia ser. Nada.”. Essa intensidade é marca necessária para o escritor Pedro Juan Gutiérrez e sua proposta de arte – irritada, grossa, voraz, capaz de nos colocar em confronto com o “verdadeiro” mundo, sem as máscaras teatrais, sem o clown shakespeariano.

Severo Sarduy

Severo Sarduy

Gutiérrez propõe uma nova visão canônica para a América Latina – longe do domínio europeu e de valores burgueses como a limpeza, a assepsia moral doentia que contesta em Trilogia de Havana Suja (1998). Seu retrato de uma cidade imu

nda, em crise, lhe parece melhor do que qualquer outra Read the rest of this entry »


Ficção: Estrada do Ouro

October 1, 2009

Vinícius Rocha

_ Não sei…

_ Conta, vai. Juro que não vou rir

_ É que vc não vai achar interessante.

_ Ai,ai, vc é todo romântico.

_ Eu chorei… um dia desses. É só isso. Fui visitar meus pais em Minas e ouvi sobre uma estrada antiga que virou atração turística, não era nada demais, mas eu senti um vazio, uma coisa parecida com saudade… eu chorei.

Gabi esperava outra coisa. Acreditou que o acontecimento especial que ele não queria contar seria alguma surpresa para ela. Um presente que ele comprou, talvez. Ou uma carta, poesia, qualquer outra coisa que pudesse ser endereçada a ela. Não achou a menor graça nessa história de choro. Demorou quase cinco minutos e respondeu:

_ Ahh ta, legal. Nao liga nao, mas eu nao posso mais teclar com vc agora, eu acabei de descobrir que eu tenho que ir lá na academia ver um negocio de matricula. bjus

Antes que o rapaz pudesse responder, uma mensagem na tela indicou a impossibilidade de realizar tal desejo: NOT CONNECTED. Restou-lhe somente uma sensação ruim, uma certa impotência diante daquela situação. Queria explicar melhor o caso do choro, tentar contornar a situação e mudar de assunto; mas ela não estava conectada. Um furo. Sentiu uma certa culpa por ter investido errado. Tentou ser sensível, falar de si mesmo, mas, foi só descer a guarda que veio a bordoada. Um fora.

Gabi ainda conferiu seus e-mails antes de se levantar, mas, não os leu, estava pensativa, com os olhos vidrados na máquina. Ficou desapontada com o rapaz depois do comentário que o infeliz se prestou a fazer, achou aquilo patético, totalmente desinteressante, no limite do ridículo e sentiu desprezo por ele: “como pode existir alguém tão sem noção. E eu lá quero saber do dia que ele chorou?”. E achava um absurdo ainda maior o fato de ele dizer que chorou porque viu uma reportagem sobre a Estrada Real. Ao lembrar do nome da estrada ficou em dúvida, lembrava que havia assistido também uma reportagem sobre o investimento turístico em uma estrada antiga, que ligava o Rio de Janeiro a Minas Gerais, mas duvidou do nome: “seria Estrada Real ou Estrada do Ouro?”. Perguntou-se várias vezes, escreveu num papel para tentar ativar a memória e desistiu. Esqueceu-se. Já havia se esquecido também do inoportuno caso do choro, e isso era muito bom, Gabi nunca gostou de perder tempo com bobagens. Aos quinze anos costumava repetir no espelho de forma enfática: “Gabi você é uma mulher de atitude!”. Isso era o melhor remédio contra ansiedade que ela conseguiu encontrar para freqüentar as festas e suportar os encontros sem ter receio de não se sair bem.

Estava quase anoitecendo, o céu ainda estava claro, mas o sol já  havia se escondido no horizonte, e aquele era o horário em que, quase religiosamente, ela costumava correr com sua amiga Nanda no calçadão da praia. Gostava da Nanda, era a única amiga confidente que ela tinha, a única para quem contava tudo sobre sua intimidade. Apesar de Gabi ter sido sempre uma pessoa de abastada convivência social, freqüentando clubes, festinhas do colégio, depois da faculdade, bares dançantes, ela aprendeu que amizade é algo raro, que não pode ser encontrado em qualquer esquina. Sempre foi seletiva em suas amizades, observava padrões de beleza, educação, auto-estima, classe social e, intuitivamente, preferia que poucas pessoas tivessem acesso ao seu mundo íntimo. Nanda era a amiga daquele momento. Mesmo sendo domingo, um dia em que elas não costumavam correr, resolveu ligar para a amiga e convidá-la a abrir uma exceção, já que assim também poderiam combinar de fazerem algo juntas depois:

_ Nanda! Sou eu, Gabi.

_ Oi! Amiga, vem aqui pra praia, eu estou aqui.

_ Ah, você está aí! Fazendo o que?

_ E o que você acha? Estou correndo, ora.

_ Mas hoje é domingo…

_ É, mas eu estava meio entediada de ficar em casa e vim. Eu sei que você não gosta de correr domingo, mas, vem pra cá.

_ Eu vou sair agora Nanda, ia até te chamar, mas deixa, depois a gente se fala. Beijo.

_ Beijo, amiga, liga mais tarde.

Gabi mal havia desligado o telefone e já estava abrindo o armário para pegar uma roupa. Outra roupa, pois, a essa altura, escolhidas estavam uma calça de laicra rosa e uma camiseta branca “básica”, ambas próprias para corrida. Vestiu uma saia preta, bem curtinha, de um tamanho que ela raramente usava e uma blusinha de alça, amarela. Nem pensou se queria sair de casa e para onde iria, foi se arrumando meio às pressas, pensando para quem ligaria e em questão de minutos já estava no carro dando a partida. Foi direto para o shopping, quase mecanicamente, sentiu que precisava tomar um chopp. Aquele dia estava um tédio.

A Marina havia lhe dito que estava com a Cida, e que iriam as duas ao encontro dela no shopping. “Logo a Cida”, pensou Gabi, “tão chatinha, tão sem sal”. Mas era o melhor que podia fazer naquele dia tedioso. Com certeza de lá elas poderiam dar mais outros mil telefonemas e descobrir algo melhor para fazer do que tomar cerveja num shopping no domingo. Mas Gabi se sentia pequena, um aperto no peito de gente deixada de lado, sentia-se gente de segunda opção, gente que sai para tomar cerveja com a Cida. Ficou lembrando da Cida, “a coitada da Cida”, só conseguia pensar na Cida como uma coitada; “aquele cabelo crespo, preso em coque, meio gordinha, de calça jeans e camisa larga, e aquela timidez irritante”. Não conseguia acreditar que tudo o que ela havia conseguido para um domingo era tomar chopp com a Cida, e num shopping.

_ Gabi! Gabi!

Marina avistou Gabi do outro lado da praça de alimentação e saiu gritando feito uma louca, espalhafatosa. E Gabi gostava disso na Marina, considerava que era um sinal de atitude.

_ Oi! E aí mulher, tudo bem? Tem tempo que eu não te vejo. Você sumiu.

Os cumprimentos foram acompanhados por calorosos abraços.

_ Que bom te ver Gabi, você está ótima! Tem tempo mesmo que a gente não se encontra. Ando trabalhando feito uma louca.

_ Oi, Cida! E você, está aí caladinha, não vai me dar um abraço?

_ Também estava com saudades de você, Gabi! E então, a gente vai sentar onde?

_ Marina, fiquei sabendo que você terminou com o Sandro. Nem acreditei, ele é uma gracinha, todo educadinho.

_ Pois é, eu também achei que ia durar mais. Pelo menos uns quatro meses. Mas não dá tempo, é final de curso, monografia e estágio, não dá para preocupar com homem. E ele não acompanha, sabe?

_ Hum… não diga! Burrinho?

_ Sei lá, nem é isso, mas ele é devagar demais, muito sem iniciativa.

_ Eu acho ele lindo. Eu bem que te falei, Má, que você ainda pode se arrepender.

_ Cida! Você está até falando! Gabi soltou uma gargalhada. _Estou brincando, amiga, não se preocupe com essas besteiras que eu falo. Venham, meninas, vamos sentar naquela mesa, ali.

Gabi conversou quase quarenta minutos com Marina sem quase nem olhar para Cida, com exceção de poucos momentos em que gracejou algum “concorda?”. E Marina foi definhando, ficando sem saco para tanto assunto chato, intelectualóide: artes em geral, moda, personalidades, numa superficialidade digna de protagonista da novela “Malhação”. Depois de três tulipas de cerveja para cada uma, Cida já não conseguia suportar a presença de Gabi, sentia-se um lixo diante da exuberância de seu modo de falar, gesticular, sorrir e não encontrou outra saída senão tentar escapar. Tomou a iniciativa:

_ Gente, eu não estou podendo ficar mais, tenho que ir mesmo. Foi bom te ver Gabi, super beijo pra você! Depois você me liga, Marina.

_ Não, Cida, fica mais, a gente veio juntas.

_ É mesmo, Cida, vai nos abandonar, é?

_ Preciso ir mesmo, fica pra próxima.

_ Ah! Que pena! Então, a gente se vê. Beijo.

_ Cida, eu vou com você. Se você precisa ir embora, eu é  que não vou te deixar na mão.

_ Mas e eu, Marina, faço o quê? Não acredito que você vai embora.

_ Pena mesmo, Gabi, mas agora que eu estou lembrando que a Cida tinha falado mesmo que não ia poder demorar. Dá cá um abraço, foi bom te ver.

_ Gente, mas eu não vou ficar tomando cerveja aqui, sozinha! Fala sério! Só mais meia hora, combinado?

_ Liga pro Mário, Gabi, tem uma festa na casa dele hoje. Acho que o bicho está pegando lá.

_ Será? Ligar assim, ele nem me chamou.

_ Claro! Ou melhor, deixa que eu ligo, então.

Não se passaram trinta segundos e a garota já havia telefonado para o dono da casa onde a festa estava acontecendo, perguntou se a festa estava boa e disse que iam as três, juntas. Despediu-se da Gabi e pediu para ela inventar para o Mário que elas não foram devido a um imprevisto qualquer.

Gabi estava com um sorriso tão amarelo quanto à blusa de alcinha que usava quando acenou um “tchau” para as colegas, que já se aproximavam da saída da praça de alimentação. Fora deixada em segundo plano. Sentiu-se pequenina novamente, desamparada no meio daquela gente estranha comendo, bebendo e sorrindo. Ninguém a olhava, ninguém estava reparando se ela encontrava-se de um modo ou de outro, assim ou assado.

Chegou a pensar ter visto um conhecido, ele acenava do outro lado da praça em sua                                                               direção; ela acenou também e percebeu que havia se enganado; ele continuou a acenar. Ela olhou disfarçadamente para os lados e viu uma mulher, que acenou levemente para o rapaz, depois se levantou e caminhou sorridente para perto dele e o abraçou.

Não quis ficar ali nem mais um minuto. Pagou a conta e saiu, meio desconcertada pela gafe. Pensou em ir para casa e ficar quieta, aquele dia havia sido demais, ela não era gente de segunda opção para ser abandonada num shopping. Ainda mais, ser deixada por alguém que preferira a Cida à companhia dela. Mas acabou concluindo que a Marina havia feito uma boa ação, que não seria certo deixar a Cida ir embora sozinha só porque ela era uma companhia mais agradável do que a coitada. Pensou que teria feito o mesmo pela Nanda, mas acrescentou: “não, é diferente, a Nanda tem estilo, sabe o que quer, mas de qualquer forma eu teria feito o mesmo pela Cida”.

Seus pensamentos seguiram proliferando enquanto dirigia. Ela costumava acreditar que o carro é um excelente lugar para refletir os assuntos da vida, e as tentativas de descobrir empaticamente como é ser alguém como a Cida custaram-lhe o tempo suficiente para deslocar-se exatamente do shopping até a casa do Mário, na Ilha do Boi. Foi tempo suficiente para concluir, como quem realiza um insight, que ela jamais saberia o que é ser alguém que não sabe se vestir bem, que não tem gosto para as coisas, que nunca ficou com um garoto bonito, que não sabe se impor, que não tem presença e mais uma extensa lista de atributos que ela, comparativamente, em relação à Cida, recordara ter.

Oito minutos exatos foi a duração da visita de Gabi à festa do Mário, e quando saiu, ela mal se despediu dos que estavam presentes, fechou a cara e fez questão de insinuar que ir até ali fora uma perda de tempo irreparável, como se tivesse ficado ofendida com a mentirinha que o anfitrião havia contado quando disse no telefone que a festa estava boa. Havia quase vinte homens, bêbados e eufóricos pela vitória que o Mengo havia conquistado naquela tarde, e meia dúzia de mulheres, amontoados feito animais, distribuídos entre um tapete e dois sofás; e gritando, dando gargalhadas, suando e exalando álcool. Para Gabi, que costumava freqüentar melhores recepções, aquela baderna toda não apresentava muitos atrativos, achou que aquilo não era mais que um amontoado de gente feia, sem graça, e pensou em sair dali quase que de imediato. Ficou somente o tempo de beber o copo de vinho que alguém deu a ela assim que entrou na casa. Se há uma coisa que Gabi sempre repugnou é o que ela chama de “homens lama”, desses que ficam bêbados nos finais das festas abraçando os amigos e rindo de casos antigos, que fazem declarações bregas para todas as mulheres que passam, que ficam acariciando os cabelos delas, colocando atrás da orelha, e fazem cara de bobo tentando ganhar um beijo. Nunca gostou de “homens lama” nem de “mulheres fáceis”, sua filosofia é a filosofia Very Important Person, bem ao estilo “eu sou mais eu”. Na verdade, aquela festa foi uma surpresa, ela esperava mais de uma festa organizada pelo Mário, que é de uma estirpe nobre, mora em uma casa grande, não imaginou que estariam todos bêbados trancados em uma sala. Pouco a pouco ela já estava se misturando aos outros, quase sendo empurrada para o meio do povo; as mulheres pararam de olhar para ela e os rapazes iam ficando à vontade para arriscar algumas cantadas. Para ser mais preciso, havia uma fila de rapazolas, cada um esperando a chance de investir sua lábia na garota. E ela se deliciou, emergiu do centro das atenções com um esnobismo de estrela assediada; afastou alguns interessados aos empurrões, atravessou o caminho de outros como se fossem imagens holográficas que desapareciam na medida em que ela se deslocava em direção à porta e ordenou ao Mário que abrisse o portão.

Os olhos de Gabi exibiam um misto de raiva esnobe e um vitorioso contentamento enquanto percorria o caminho de volta para casa de seu pai. Era como se ela estivesse de novo nos seus “eixos”, recolocada no lugar de poder que acreditava ocupar. Esquecera do chato da internet que falou de si mesmo, esquecera da Nanda, esquecera da Cida e esquecera que havia ido até a casa do Mário sedenta por companhia e atenção. Considerou um absurdo que o dono da casa a deixou entrar e ver aquela festinha sem graça, ver aqueles caras ridículos fissurados em mulher, como se ele não estivesse nem um pouco preocupado em “queimar o próprio filme”. Pensava na cara do Mário e ria, e repetia consigo mesma: “queimou o filme”. Estava voltando para casa sem hesitar, sem nem mesmo considerar a possibilidade de ir a outro lugar ou fazer qualquer outra coisa. O dia terminara ali, e tudo o que ela tinha em mente era uma dúvida, não conseguia se lembrar se havia sido clara o suficiente com um rapaz quando disse a ele que não sentia vontade alguma de conhecê-lo. Teve receio de que ele ainda alimentasse esperanças de conquistá-la e viesse a ser inoportuno em outra situação: “só falta essa, aquele lama ficar no meu pé. Nunca vi o cara e ele dizendo que faz tempo que queria me conhecer, que ficava me olhando, mas não tinha coragem de chegar. Ai, que chato!”.

Quando chegou em casa sentia que estava com sono, resolveu que não ia conferir a caixa de mensagens e desligou o computador, que nos domingos costumava deixar ligado o dia inteiro, escovou os dentes e sentou-se à beirada da cama. Na cabeceira havia uma caixinha, diferente das outras, preta e aveludada, uma caixa que ela jamais vira. Achou estranho e pegou para ver, mesmo que com um certo desinteresse, pois poderia ser algum erro da faxineira que “tinha o hábito de mudar as coisas de lugar”, mas deitou-se e ficou olhando para caixa fechada. Olhou para o lado e viu que um pedaço de papel havia caído no chão, não o percebera antes, mas entendeu que devia estar embaixo da caixa. Apanhou-o e reconheceu a letra de seu pai escrita no papel. Era um bilhete: “Gabi, papai te ama muito, e esse é um presentinho para você ficar ainda mais bonita. Espero que goste da surpresa. Boa noite!”.

Imediatamente ela abriu a caixa e encontrou um colar, feito de um metal muito brilhoso e bem trabalhado, brilhava tanto que ela o posicionou na cabeceira da cama e levantou-se para tomar distância e vê-lo em perspectiva. Achou lindo. Colocou-o no pescoço e foi ver no espelho do armário, não podia acreditar, era de muito bom gosto, chique e pouco extravagante. O presente a fez perder o sono, ficou quase meia hora com um sorriso aberto até as orelhas e experimentando vestido por vestido para ver qual combinaria mais com o colar. Lembrou do pai e resolveu escrever um bilhete, disse que ele era o melhor pai do mundo e colocou debaixo da porta do quarto, para que ele pudesse ler assim que acordasse. Gabi estava muito feliz, queria dormir e acordar logo, sentia como se o mundo a esperasse, como se muitas coisas boas estivessem por acontecer e sentia que estava pronta, preparada para tudo. Deitou a cabeça no travesseiro e pensou em relaxar, ficou um pouco de olhos fechados sentindo seu corpo solto na cama, imaginou estar flutuando e tentou pensar em coisas boas. Lentamente ela começou a se acalmar, foi ficando meio letárgica e antes que adormecesse, ainda pensou no colar por alguns instantes. Lembrou do brilho daquela jóia e sorriu, concluindo que um brilho daquela intensidade não poderia ser outra coisa senão ouro.


Music Monday: Yael Naïm

September 28, 2009

Inglês, francês, hebraico. As faixas do pequeno (e raro, mas toma aqui uma faixa) álbum da cantora israelense, radicada na França, Yael Naïm ganhou notoriedade quando a faixa New Soul apareceu num comercial. Desde então, vem conquistando um forte público, junto com o seu companheiro David Donatien.

Quem olha, nem imagina que um dos maiores hits da cantora é justamente uma versão de Toxic, da americana Britney Spears. Mas esqueça os diamantes e a loira semi-nua dos clipes da Mtv – o climaé sombio, cheio de efeitos eletrônicos, flautas, metalofone e, para a completa subversão do pop, uma guitarra estridente afinada ao som de 1970′s.

Confere aê:


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